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Resgate de risco em Roraima
Jailton de Carvalho
Enviado especial FOZ DO IGUAÇU

Com apoio de mil homens do Exército especializados em guerra na selva, a Polícia Federal está preparando a Operação José do Egito para resgatar os quatro policiais que, desde sexta-feira da semana passada, são mantidos como reféns na aldeia Flechal, na reserva Raposa Serra do Sol, em Roraima. A polícia planeja entrar em ação de hoje até segunda-feira. A operação é considerada de alto risco, mas para a Polícia Federal não vê outra alternativa.

A PF teme que os líderes do seqüestro percam o controle sobre o protesto e índios rebeldes matem os policiais a qualquer momento, se permanecer o impasse nas negociações.

— Está tudo certo, vamos chegar lá e resgatar os policiais sem problemas. As negociações estão se esgotando — confidenciou um delegado da cúpula da Polícia Federal minutos antes de autorizar o superintendente da PF em Roraima, Francisco Mallman, a levar adiante a operação-resgate.

A operação foi chamada de José do Egito em referência a um trecho da Bíblia em que José é resgatado de um poço onde foi jogado pelos irmãos.

“Vamos esgotar os nossos limites”

Depois de inaugurar a nova sede da PF em Foz do Iguaçu, o ministro da Justiça, Márcio Thomaz Bastos, disse que as negociações com os índios amotinados estão chegando ao fim. O ministro afirmou que a homologação da reserva em terras contínuas, principal motivo do protesto dos índios macuxis, é irreversível. Bastos deixou claro ainda que não poupará esforços para manter a ordem em Roraima.

— Estamos negociando com uma paciência infinita a soltura desses bravos policiais que se encontram junto com os índios, mas nós vamos esgotar os nossos limites — afirmou.

As tropas do Exército já estão mobilizadas. Boa parte do contingente deverá ser recrutada no Centro de Instrução de Guerra na Selva, de Manaus. Está sendo cogitado também o uso de militares da brigada de pára-quedistas do Rio de Janeiro. O comando do Exército já informou à PF que em poucas horas tem condições de transportar a tropa necessária à operação para as imediações da reserva, onde os policiais estão detidos. Cerca de 250 policiais federais, também especializados em combates na selva, já estão em Roraima prontos para agir.

A intervenção policial-militar começou a ser planejada no início da semana, quando os serviços de inteligência do Gabinete de Segurança Institucional e da PF perceberam que não há disposição dos índios de soltar tão cedo os policiais. A situação se agravou na manhã de ontem, depois que os índios decidiram separar os reféns e levá-los para a mata. Até então, eles estavam num barraco dentro da aldeia.

— O clima está pesado. O nosso medo é que algum índio faça uma besteira e mate um policial — disse um observador da crise.

Aldeia tem 300 índios armados

Para a PF, há risco de derramamento de sangue. Pelos dados da polícia, pelo menos 800 índios estão concentrados na aldeia Flechal, centro da resistência à homologação da Raposa Serra do Sol em terras contínuas. Do total, 300 são guerreiros armados com espingardas, arcos e flechas envenenadas, entre outras armas. Integrantes do governo de Roraima afirmam que mais de 1.300 índios estão acampados na aldeia dispostos a reagir.

— Os índios dizem que não vão soltar os policiais. Eles dizem que estão cansados de ser tutelados pelo Estado. Agora eles querem ser ouvidos — afirmou o secretário de Comunicação de Roraima, Rui Figueiredo.

O protesto contra a demarcação da reserva em terras contínuas está sendo liderado entre os índios pela Sociedade de Defesa dos Índios Unidos de Roraima (Sodiur), que exerce influência sobre a área de Flechal e outras sete aldeias da reserva. Ao todo, controla mais de 5.800 índios, o que corresponde a quase um terço dos 16.400 macuxis que vivem na reserva.

A PF suspeita que o seqüestro de um delegado e três agentes pelos índios foi articulado por fazendeiros, entre eles o prefeito de Pacaraima, Paulo César Quartieiro. A polícia recebeu a informação de que o prefeito fugiu para o exterior. Ele teria pedido licença da Câmara de Vereadores para se ausentar e foi para Santa Helena, na Venezuela, a 30 quilômetros da cidade.

No exterior o prefeito estaria em contato com líderes do seqüestro por meio de um telefone com conexão por satélite. Quartieiro reivindica a posse de 9,2 hectares de terras na Raposa Serra do Sol. Ele é o maior produtor de arroz da região. Mesmo não tendo título de proprietário, Quartieiro disse que não sai da reserva nem aceita indenização do governo federal.
O repórter viajou a convite da Polícia Federal
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